Puno foi à cidade mais tranqüila no Peru em termos de conseguir um lugar para se hospedar e contratar uma excursão. Na verdade eu não sabia direito o que fazer na cidade, viajei no impulso sabendo apenas da existência do lago. Quando cheguei fui abordado por um senhor cujo nome era César no qual ofereceu alguns hotéis e de imediato achei um pouco caro até que entramos em acordo por um preço acessível. Depois de acertado a minha estadia o mesmo me perguntou se eu havia contratado alguma excursão e de imediato eu disse que não, pois até então eu nem saberia o que fazer naquela cidade;
Fui ate sua agencia e o mesmo me mostrou um turismo de dois dias e uma noite sobre o lago Titicaca. O primeiro dia consistia em visitar a ilha de Uros que é uma ilha flutuante construída pela comunidade que nela vive e posteriormente iríamos para a ilha de Amantini na qual iria hospedar na casa de uma família local, comer o que eles comem e aprender sobre a cultura deles, no segundo dia iríamos para a ilha de Taquille conhecer sua comunidade. Ao receber estas informações agradeci a mim mesmo por ter ido a Puno e imediatamente contratei o passo que por sinal foi um dos mais baratos que paguei até então.
Fui para o hotel no qual o senhor César havia feito a reserva e encantei com o quarto pelo valor no qual paguei. Arrumei os preparativos para o dia seguinte e fui tentar dormir, pois ansiedade era muita na qual no consegui pegar no sono rápido.
No dia seguinte acordei bem cedo e fui para a recepção esperar pelo carro me pegar, a dona do hotel ligou para o senhor César duas vezes dizendo que eu já estava esperando e queria partir, na verdade eu estava ansioso, mas não ao ponto de esta desesperado, a senhora parecia estar mais ansiosa com minha partida do que eu.
Uma moça simpática entrou na recepção do hotel e me conduziu até uma avenida no qual tive que esperar uns quinze minutos mais. Ao entrar no ônibus conheci todos os tripulantes desta aventura e não tardou muito chegamos às margens do lago Titicaca para pegar o barco.
Tripulação a bordo e barco desancorado iniciamos a viagem e percorremos o lago por algumas horas até avistarmos a ilha de Uros, neste momento o guia nos ensinou como cumprimentar as pessoas da ilha em Quechua que é sua língua oficial. Depois de ter feito um curso rápido de Quechua desembarcamos na ilha com o sorriso imenso das pessoas para nos receber. Ao descer do barco fui recebido por uma senhora que imediatamente perguntou se eu queria conhecer sua casa e de imediato me prontifiquei à acompanhá-la. A senhora esta toda feliz e me contava com muito entusiasmo que tinha luz em sua casa a base de energia solar e que havia acabado de adquirir uma televisão pequena preto e branca. Neste momento refleti sobre minha vida e percebi que realmente precisamos de muito pouco para ser feliz, eu que tinha tudo do bom e melhor e não encontrei minha felicidade e ali no meio de um lago sobre uma ilha construída com as mais simples matéria prima existente e com uma senhora que tinha tão pouco, mas estampava uma alegria infinita em sua áurea eu percebi novamente que precisava voltar a sorrir.
Depois de mostrar sua casa e ligar a televisão para certificar que funcionava a senhora me emprestou algumas roupas de sua família para tirar algumas fotos e após ter pedido a ela a mesma me concedeu o presente de ter uma foto ao seu lado. Depois da sessão de fotos fui observar os bordados que a mesma fazia e acabei não resistindo e comprei um bordado que demorou três meses para ficar pronto para enviar a minha Irma no Brasil.
Após deixar a senhora sentei em um banco cuja forma era uma meia lua no centro da ilha nos qual ficamos observado a explicação dos moradores locais nos ensinando passo a passo como se constrói uma ilha flutuante e o mais interessante que achei é que se alguma pessoa da ilha briga com seu vizinho simplesmente eles pegam um serrote e cortam a ilha separando assim as desavenças.
Após dizer tchau para a ilha de Uros seguimos para a ilha de Amantini na qual se encontrava a umas duas horas dali e durante o percurso o guia explicou que iríamos chegar e que todas as famílias estariam reunidas nos esperando para que fosse realizada a divisão das pessoas de acordo com o número de pessoas e disponibilidade das famílias. Fui a segunda pessoa a ser chamada e quem me recebeu foi Dona Marta uma senhora já de idade e muito simpática. A mesma ao me vê abriu um sorriso e me cumprimentou dando-me as boas vindas. Dona Marta pediu para que a seguisse até sua residência e no meio do caminho ela havia deixado um feixe de uma planta e que parecia muito pesado, deu vontade de perguntei a mesma se queria ajuda para carregar ou colocar nas costas, mas sabia quer ela recusaria então assisti ela jogar sua manta nas costas e saindo encurvada pelo caminho afora. Fiquei com certa pena daquela pobre mulher carregando todo aquele peso morro acima, mas logo entendi que isso faz parte da sua cultura e eu não poderia mudar isso.
Ao chegar a sua residência fui apresentado para Cristina que é sobrinha de dona Marta e vive com ela na mesma residência. Fui para o quarto descansar um pouco até que Dona Marta e Cristina preparava o almoço. Desci e Cristina me deixou ajudar descascando as batatas, e novamente percebi o valor que não dava as coisas que tinha, pois queria muito o meu descascador de batatas ali visto que a faca que elas me forneceram estava completamente cega.
O almoço saiu quase quatro horas da tarde e ao sentar-se à mesa fui servido por uma sopa de Quinua e ao lado uma pequena tigela com folhas de munha (uma erva que eles utilizam), imediatamente coloque a erva dentro da minha sopa como se fosse um manjericão e quando Cristina viu o que estava fazendo prontamente me disse que as ervas eram para o chá! Rsrsrs. Saímos atrasados para a partida de futebol entre os estrangeiros e os homens locais e durante nossa subida até a quadra de futebol que era o ponto de encontro dona Marta fazia questão de mostrar suas plantações e explicar para que serve cada planta que ela possui orgulhosamente. Quando chegamos todos já haviam iniciado a caminhada rumo a PachaMama e PachaTata que são as duas montanhas sagradas para eles. Apressei-me para alcançar o grupo e confesso que a subida não foi muito fácil devido à falta de oxigênio.
Durante o caminho o guia foi explicando os costumes locais e ao chegar na bifurcação para os dois caminhos o guia pediu para escolhermos em qual montanha gostaríamos de subir visto que teríamos tempos apenas de subir em uma montanha, neste o momento o grupo se dividiu pois uns preferiram subir no templo do PachaTata e outros no templo da PachaMama. Meu sentimentos me pediram para ir para a PachaMama, porém antes de iniciar a subida o guia nos disse que se alguma pessoa do grupo fosse divorciada não poderia subir pois na crença deles se você casa é para sempre por isso eles vivem juntos três anos e se não houve descompatibilidade ai sim é realizado a cerimônia de casamento que dura sete dias sem parar e os noivos não tem lua de mel. Também foi nos dito que ao chegarmos na frente do templo deveríamos dar três voltas no sentido anti horário e depois parar na porta do templo e fazer um pedido para a PachaMama ou PachaTata mas nunca se pode pedir para você mesmo e sim para outra pessoa. Realizei todo o ritual e depois fui admirar o por do sol sobre o lago Titicaca e quando estava no êxtase do meu cigarro e da paisagem fui interrompido por Sebastian um colombiano que começou a conversar comigo em português, pois o mesmo havia estudado português na Colômbia.
Admirei o por do Sol e depois desci as montanhas e para minha surpresa dona Marta estava na quadra esperando pelo meu regresso, fiquei com um anseio de culpa pois deixei aquela senhora me esperando por mais de duas horas e eu ainda queria tomar um chocolate quente para amenizar um pouco o frio que estava fazendo. Dona Marta fez questão de esperar que eu tomasse o chocolate mesmo eu insistindo para que ela regressa-se a sua casa. Quando descemos passamos em frente a uma mercearia e Dona Marta perguntou se eu não queria comprar nada e eu disse que não, mas ela insistiu outra vez então resolvi comprar um pacote de biscoito. A ficha demorou a cair para entender que na verdade ela estava precisando de açúcar e algumas coisas a mais. Comprei as coisas que ela precisava e também dois pacotes de biscoitos que ela me perguntou se era para a família e eu disse que sim onde imediatamente ela guardou no grande bolso de sua saia. Quando sentei para esperar o menino buscar os ovos Dona Marta se sentou ao meu e com um imenso sorriso colocou as mãos sobre minhas costas como um gesto de agradecimento pelo que havia dado a ela.
Descemos para a sua residência no qual fui apresentado ao outros quatros membros da família. Ao chegar dona Marta abriu o pacote de biscoito e distribui por igual para toda a família. Esperei um pouco e o jantar foi servido, eu não estava com fome e infelizmente cometi a deselegância de sair da mesa antes que o prato principal fosse servido, mas foi melhor sair do que passar mal, pois já estava muito satisfeito.
Subi para o quarto e troquei de roupa para ir para a festa e eles fizeram para todos os estrangeiros que estavam na ilha. Quando já estava pronto inclusive com perfume passado dona Marta aparece com um enorme saco de onde extraiu algumas roupas e me vestiu tipicamente como uma pessoa andina para a festa. Saímos para festa em meio a escuridão e quando chegamos ao local todos os estrangeiros já estavam com suas roupas típicas. A banda começou a tocar uma musicas Inca e imediatamente fomos tirados para dançar. Eu que estava com um pouco de do de dona Marta, a mesma me deu uma canseira na dança que gostaria de saber onde aquela senhora conseguia todo fôlego para dançar.
Depois da diversão voltei guiado por dorna Marta ate a sua residência e dormi. No dia seguinte fui acordado às sete horas da manhã para tomar o café da manha. Após está completamente desperto dona Marta me levou ate a barco e ficou dando tchau com um imenso sorriso até que não mais pude vê-la.
Parti para a ilha de Tequilla onde foi apresentada uma comunidade na qual o meio de vida é extremamente comunista. Eles são únicos no mundo, na ilha existem vários comércios e os mesmos são abastecidos pela comunidade local na qual produzem todos os seus artesanatos para venda. A cada semana uma família é responsável por trabalhar nas lojas e ao final do mês o dinheiro é repartido para toda a comunidade. Os restaurantes também funcionam do mesmo modo, ou seja, a cada grupo de turista que chega cada um é levado para um determinado restaurante, aqui não se pode escolher onde vai comer. Isso acontece para que todos na ilha tenham a mesma responsabilidade e possam contribuir para o bem da comunidade.
O que mais me interessou foi quando o guia descreveu a maneira na qual eles vivem, pois aqui as mulheres cortejam os homens e não ao contrario, as mesmas utilizam um gorro com dois pompons, um muito colorido e outro menos. Quando as mulheres estão felizes elas utilizam o mais colorido para frente e quando estão tristes utilizam o menos colorido. No momento de sua tristeza somente os amigos e os lideres da ilha podem conversar com elas para saber o motivo da sua tristeza. No auge de sua felicidade elas saem para a festa a noite que acontece em datas especificas do ano e ao avistar um rapaz que interessa elas sacodem o pompom colorido e ele caso se interesse retribui mudando seu gorro de posição. Para eles os gorros masculinos definem todas as características masculinas, ou seja, pelo gorro é possível saber se o homem é casado, solteiro, independente, dependente, adolescente e etc.
Segundo a tradição deles os homens são responsáveis por tecer as roupas femininas e as mulheres pelas roupas masculinas, então se você encontrar homens costurando enormes vestidos pelas ruas não se assuste, isso faz parte da cultura.
Puno para mim foi uma experiência incrível, pois aqui aprendi muito sobre a cultura local e penso que eles têm muito a ensinar para o mundo, pois machismo é uma palavra que não existe no vocabulário destas pessoas magníficas.